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terça-feira, 11 de maio de 2010

A dura vida escolar de uma menina tímida

Minha primeira memória a respeito de uma paixão platônica por um menino é da 1ª série. O nome dele era Roberto (Betinho) e a única coisa que me lembro bem é de seu nome mesmo. De suas características físicas, só sei que tinha os cabelos pretos. Nessa época estudava numa escola municipal.

O que mais me lembro dessa escola é sua estrutura. Os pátios, os corredores escuros e sombrios e o refeitório enorme. Eu ia de uniforme, o clássico shortinho azul com camiseta branca. Meias até o tornozelo e tênis pretos - um chuchuzinho, não? E como eu gostava de me enfeitar, ia cheia de pulseirinhas, arquinhos e "xuxinhas" coloridas. Sem contar o batonzinho com formato de moranguinho e sabor idem. Para completar o visual, só mesmo uma maletinha amarela cheia de respingos coloridos por toda sua extensão. Eu a detestava.

O recreio era agitado e só me lembro de cantarolar as músicas da Xuxa e da Angélica enquanto carregava minha lancheira da Minnie. Tinha um moleque, o Anderson, que ficava me aporrinhando durante o intervalo. Me lembro muito bem de sair correndo atrás dele com a lancheira em mãos para dar-lhe umas lancheiradas da testa. Tinha também um tal de André, um pirralho feio pra burro e mais pentelho que o Anderson, que roubava meu precioso lanchinho. Devo ter fofocado pros meus pais, que tomaram iniciativas. Me recordo ainda do dia que eles foram até a escola pra conversar com a professora. Pouco tempo depois, estava eu em outra escola, agora estadual.

Passei de uma escola pra outra no meio do ano, então fui tida como uma intrusa na minha nova classe. Por motivos que eu não faço ideia, me colocaram na primeira carteira. Lembro-me claramente da professora. Uma velha magra com óculos grandes e um dente de ouro na boca. A pobre coitada berrava aos montes dentro da sala pra demonstrar autoridade e pra ser claramente ouvida. Pior de quem sentava na primeira carteira. Mas o problema maior é que ela acabava soltando umas gotas de baba enquanto berrava. Pior MESMO pra quem sentava na primeira carteira. Lembro-me de ter pensado em levar um guarda-chuva pra aula. De qualquer forma, ela era boazinha comigo e parecia gostar de mim. Me dava atenção quando eu não entendia e pelo visto se orgulhava do fato de eu já saber escrever e fazer continhas. Eu parecia ser um prodígio ali. Não me lembro de muitas coisas mais. Só sei que chorei horrores no primeiro dia de aula naquele lugar. Implorei pros meus pais não me deixarem ali. Mudanças repentinas assim assustam qualquer criança! Mas mesmo não querendo, fui jogada naquele lugar cheio de crianças desconhecidas.

Passei o resto da vida escolar dentro daquela escola. Na 3ª série eu já entendia mais coisas e fiz amiguinhos. Mas ainda assim não me recordo de muita coisa. A 4ª, sim, foi memorável. Foi quando me deparei com a insuportável dúvida de gostar deste ou daquele menino. Eu era um protótipo da Dona Flor e seus Dois Maridos. O Flavindo era uma graça de menino. Tinha a pele branquinha, bochechas mordíveis e era cheio de humor. Mas o César era inteligente, educado, requintado. Pronto, a encruzilhada estava formada. E foi nessa época, com meus 10 aninhos, que eu passei a ver menininhos como possíveis amigos - e não apenas rivais. Mas é claro que ninguém nunca ficou sabendo disso, né? Eu era muito, muito, muuuito tímida. Então eu só olhava de longe mesmo e ficava pensando com meus botões o que seria essa coisa estranha. Não sei se foi por isso, mas naquele ano eu penei pra aprender a tabuada. Ainda mais com aquela professora carrasca que só sabia berrar. Cara, talvez esteja aí meu trauma por Matemática!

Naquele ano a criançada teve uma aula de educação sexual ou pelo menos deveria ser isso. Foi uma aula-surpresa, e o interessante é que eu não tinha ido à aula nesse dia. No outro dia, lembro que uma menina me disse que eu tinha perdido a aula de como usar "modess". Ela ainda disse que as meninas ficaram na sala e os meninos saíram nessa hora. Ah cara, eu queria ter ido a essa aula! Aliás, eu precisava ter ido, já que naquele mesmo ano a menarca deu as caras. Como eu ainda não sabia sobre o assunto, minha mãe teve de fazer seu papel e me ensinar a usar aquela fralda. Pra mim foi realmente estranho fazer um baita sacrifício pra largar as fraldas e depois ter de voltar a usá-las. Pior é que só aos 14 anos é que fui perceber que eu estava crescendo menos do que as outras meninas. Ao procurar um médico, já era tarde: eu seria baixinha para sempre. Na hora não foi difícil assimilar a ideia, mas quando tive aulas de vôlei e basquete, senti a falta de uns centímetros a mais.

Passar para a 5ª série foi o ó do borogodó. A escola era dividida estruturalmente entre ensino primário e ensino fundamental. Eu finalmente estava indo para o "lado dos grandões", para o pátio que antes era apenas um mito pra mim. A 5ª série foi divertida. Conheci duas pessoas que passaram muito tempo comigo depois. Uma menina e um menino, veja só que bonitinho. E aí formamos um trio. Ela estudou comigo até a 8ª série e ele, até a 7ª. Se bem que eu não lembro dele na 6ª série. Estanho... Bom, lembro-me também de ter estudado com a Lilian, que me acompanhou também na 6ª série e na faculdade, anos depois. Tinha também a Alessandra com seus longos cabelos cacheados, tratados com creme para pentear Seda para cabelos cacheados. Como os meus eram também, eu fazia de tudo para deixá-los como os dela. Isso incluía molhar o cabelo e passar aquele creme, deixando aquele aspecto "acabei de lavar". Mas isso tudo eu só descobri no ano seguinte.

Bom, nessa época eu estava com 11 anos. Estava me desenvolvendo. Foi quando ganhei meu primeiro soutien. Era lilás com detalhes de renda. Mas o incrível foi o que um moleque sem-noção chamado Bruno disse sobre isso. Ele sentava na minha frente e às vezes parecia que gostava de mim. Mas ele era louco de pedra, então eu não dava muita atenção pra ele. Depois do que ele disse, então, passei a evitá-lo. Ele teve a audácia de me perguntar se eu estava colocando papel higiênico sob o soutien. Na hora eu fiquei sem entender, era toda inocente, né? Imaginei que um rolo de papel higiênico seria muito grande pra caber ali, então que baboseira ele tava dizendo, oras? Só entendi muito tempo depois e fiquei com mais raiva ainda dele. Eu sinceramente acho que ele era tarado. Uma vez ele virou pra mim e, do nada, soltou:

- Moça, me vê duas passagens carimbadas de ida e volta pra Volta Redonda.

Parece muito inocente, não fosse o fato de ele fazer gestos com as mãos enquanto falava. O "carimbadas" é o gesto que alguém faz de foda. O "ida e volta" era aquele movimento clássico do Créu, sabe? E o "Volta Redonda" era uma prolongação do "ida e volta", mas num movimento circular. Pois é, um tarado de 11 anos.

Na 6ª série eu acabei me sentando lá no fundo da classe. Mas sofri horrores com isso, porque eu não enxergava o que estava escrito no quadro. Tinha que me virar e copiar do caderno da menina que estava atrás de mim. Eu precisava de óculos, mas morria de medo de contar pros meus pais, principalmente porque foi naquele ano que eu comecei a usar aparelho - o famoso "freio-de-burro", sabe? E tinha uma menina na classe que usava esse aparelho e ainda óculos fundo-de-garrafa. Ela era muuito zoada por causa dessa cara engraçada dela, cheia de acessórios esquisitos. Eu é que não ia querer ficar como ela! Preferia continuar copiando a matéria do caderno alheio.

Nessa época eu descobri que gostava de Ciências e fiquei apaixonada por nutrição. Queria saber se esse ou aquele alimento fazia bem e coisa e tal. Foi também nesse ano que eu fui líder de classe. Eu tinha um caderninho onde anotava tudo o que acontecia na classe, principalmente quando a professora não estava e naquele pequeno intervalo de troca de professores. Anotei o nome de um mesmo menino milhares de vezes - era um peralta maluco que tinha cara de psicopata.

Com 12 anos o corpo das meninas já está bem desenvolvido. Ao contrário dos meninos. Eles começam a espichar só com 14 ou 15, ficam disformes e parecem girafas andando pelos corredores. Só que tinha um na sala que era especialmente chamado de Girafa, em virtude de seu pescoço alongado e de sua silhueta comprida e magricela. Ele veio do sítio e era o único a usar a camiseta dentro da calça - motivo de chacota dos meninos. Mas por ser todo inocente e bem educado, era o sonho das menininhas. Todas babavam por ele - inclusive eu, né? Mas como eu era muito apaixonadinha por qualquer coisa bonitinha que fizessem, o Wesley Girafa não era minha única atenção. A brincadeiras do "pêra-uva-maçã-salada mista" e "verdade ou mentira" eram clássicas na época e aquela coisa de descobrir o sexo oposto era um tabu. Ainda mais pra mim, uma menina tímida, recatada e medrosa. Mas os desenhos da Disney haviam feito seu trabalho e eu sonhava com o príncipe encantado. Criança acredita em tudo, né? Nessas horas é bom ter crescido - ou nem tanto...

Meu dente de bandeirinha-de-são-joão

Minha família era mais reunida quando a bisavó era viva. Nas festas de final de ano, era sempe a mesma coisa: a véspera de natal era na casa dos meus tios daqui da cidade e o dia de natal era na casa da bisavó em Cambira.

A bisa Sebastiana, mais conhecida como Bastiana, viveu seus 80 e poucos anos. Lembro quando ela fez 80. A festa foi animada e ela tava toda feliz atrás do bolo. E aí foi foto com os filhos, com as noras, com os netos, com os bisnetos...

A família do lado do meu pai é uma mistura de italianos com africanos, então imagina a fuzaca! A vó da minha bisa veio da África - acho que é isso, se não for, é a mãe dela quem veio então. Só sei que sim, eu tenho um pé na senzala. Meu cabelo cacheado e minha cor indefinida veio daí.

Com todo aquele banzé, eu e minha irmã, sempre quietinhas como dois bichinhos assustados, ficávamos no cantinho brincando ou então grudadas na mãe ouvindo as conversas sobre crochê, tricô e culinária. Já os primos não. Eram todos uns pestinhas que não paravam de correr e gritar.

Certa vez foi feito um almoço na casa de uma prima lá do meu pai, de Cambira mesmo. A casa era grande, com um quintal quadrado com máquina de lavar e varal para secar as roupas e um retangular e comprido com mesas e churrasqueira, os dois separados por um corredor aberto e longo. Os primos e as primas, todos de idades aproximadas, como sempre não conseguiam ficar no lugar.E aí resolvemos brincar de cabra-cega (ou cobra-cega, tanto faz).

Fomos até a varanda quadrada, parecia um bom espaço para a brincadeira. Quando foi minha vez de tapar os olhos com uma venda, lembro até hoje de avisá-los de que a brincadeira só ia "valer" ali naquela varanda e que não era pra ir até a garagem. Bom, a passagem para a garagem, que dava para a rua, era uma pequena escadinha de uns 2 ou 3 degraus. Aviso dado e olhos vendados, me rodaram pra que eu perdesse a noção de onde estava e a brincadeira começou.

Tal brincadeira consiste, basicamente, em tapar os olhos de uma pessoa, rodá-la e sair correndo pra que ela não pegue você. Aí você pode brincar com ela, cutucando e saindo de perto rapidamente, só pra aporrinhar. Se a pessoa vendada conseguir pegar alguém, ela passa a vez de ser vendada à pessoa capturada. Muito simples, han?

É, mas a adrenalina corre solta nessas brincadeiras de captura. Eu ali, com os braços estendidos e olhos vendados, rodopiando feito barata tonta no meio da varanda e todos os outros em volta gritando "tá frio", "tá quente". Só sei que consegui agarrar alguém. Peguei pela camiseta e o ser começou a correr e eu atrás, segurando, e de olhos ainda vendados. De repente, perdi o chão e caí de cara. Pronto, a merda estava feita. Tirei a venda e nisso tava todo mundo vindo ao meu encontro. É, eu tinah avisado que não valia ir pra garagem! Que droga, ninguém me escuta! Fiquei lá esbravejando e olhando pro farelinho que havia se formado no chão. Era meu precioso dente incisivo, já permanente. Minha prima me ajudou a levantar e me levou até o quarto dela. Estavam todos tensos e não sabiam o que fazer. E eu, temendo levar uma bela bronca, resolvi esconder a cagada da minha mãe. Toda vez que a gente caía, ela corria ver nossa boca. Então presumi que se ela visse meu dente da frente quebrado, ela me daria uma bela surra. Cabeça de criança, né, vai entender.

A brincadeira acabou ali e eu fiquei de boca fechada o resto do dia. Fomos embora. Não me lembro se foi no mesmo dia ou no outro quando minha mãe finalmente viu o estrago. Estávamos nos preparando para sair, escovando os dentes uma ao lado da outra e em frente o espelho. Enquanto tinha espuma na boca, beleza. Mas aí alguém falou alguma coisa engraçada e nós rimos. Fim do segredo, revelado por uma piada. Minha mãe chorou ao ver aquilo. Bom, pelo menos eu não apanhei.

No ano seguinte, aos 12, comecei a usar aparelho nos dentes, o que foi uma salvação pra mim, porque escondia bem aquele meu dente de bandeirinha-de-são-joão. Convivi com ele até meus 16 anos, quando finalmente tirei os aparelhos. A dentista arrumou o dente quebrado assim que tirou os ferrinhos. Voilá: sorriso perfeito. Bom, mas a essa altura a miopia já estava avançada e eu tive que passar a usar óculos. Ô vida cruel.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Brincando de boneca

Quando tava procurando informações sobre o Homem Azul, encontrei o blog do Philipe, um cara que eu não conheço mas que escreve de um jeito muuito engraçado. Fui perambulando pelo blog e li uma porção de "causos" que ele escreveu, sobre sua vida mesmo, engraçadíssimos. Bom, ele nem sabe que tô postando isso aqui - e isso realmente não importa. O fato é que ler lembranças de um desconhecido me fez pensar nas minhas. E aí pimba, me veio uma baita vontade de escrever sobre algumas aqui também. Talvez até pra que eu mesma possa ler mais tarde e rir um pouco de mim mesma.

Pelo visto o tal Philipe passou por muitas situações cômicas e também por saias-justas - justíssimas, diria. Eu não tenho lá grandes coisas pra escrever, já que nasci e cresci numa cidade pequena e nunca saí do lugar que estou
. Pra se ter uma ideia, moro na mesma casa há 18 anos. Como fica na avenida principal da cidade (a única), nunca pude sair para brincar na rua. Meus pais não mantinham muitas amizades, então quase não via outras crianças. Era eu e minha irmã, 4 anos mais nova que eu.

Brincávamos de casinha, mas nossa predileção estava na boneca magra e olhuda que já fez 50 anos - é isso aí, a Barbie. Inventávamos as mais diversas situações e tínhamos criatividade para fazer de meros farrapos roupinhas fofas para as nossas dezenas de bonecas. Bom, como nossa situação financeira não era muito favorável, a maioria delas era falsa, daquelas em que a gente pode arrancar a cabeça da boneca e colocá-la de volta. Ou até mesmo trocar de cabeças entre as bonecas, o que às vezes não resultava em um brinquedo muito bonito de se ver. Tivemos algumas Barbies originais, e a maioria foi minha irmã quem ganhou, em aniversários e por cirurgias que teve que passar.


Mas não importava se a Barbie era verdadeira ou falsa, o que importava era a imaginação. Quando inventávamos que elas iam à praia, fazíamos seus maiôs de massinha de modelar. Duro era conseguir tirar aquele grude das bonecas depois! Ah, mas nada como um dia no clube para resolver! Enchíamos o tanque de água e as bonecas quase derretiam ali de tanto que brincávamos. E a imaginação ia longe. Construíamos a família toda - pai, mãe, irmãs, sobrinhos... Enquanto tivessem bonecas, a família não parava de crescer. Eu tinha uma Barbie e minha irmã tinha outra, e as duas eram irmãs. Tínhamos também dois bonecos (o tal Ken, só que falso), um pra mim e um pra ela. Eram nossos namorados, mas noivávamos e casávamos também. Lembro quando fizemos o casamento das nossas bonecas. Todo paninho branco encontrado foi usado, e o vestido da noiva ficou um show!

Bom, como não sabíamos costurar e tínhamos medo de espetar o dedo, colávamos tudo com fita adesiva - durex, mesmo. Enquanto confeccionávamos, os joelhos iam se enchendo de durex. O chão também, os chinelos também, e a casa toda também. Tínhamos um cômodo da casa para brincarmos, e era onde se guardava sapatos, ferramentas do meu pai, malas de viagem, e muitas bugigangas mais. Um verdadeiro ninho. Nossos brinquedo ficavam numa caixa enorme - a da máquina de lavar. Então, pra brincar, tínhamos de virá-la pra encontrar, às vezes, um sapatinho. As prateleiras de aço que hoje são usadas para guardar sapatos, eram a casinha da nossa família. Cada parte era um cômodo, assim como era a verdadeira casinha da Barbie. Quando a boneca da minha irmã casou, ela passou a fazer a casinha dela em cima das mesinhas.

Cada boneca tinha uma voz diferente. Os homens também! E os diálogos fluíam numa boa, parecia novela. Nosso sonho era fazer todas as bonecas se moverem. Era chato fazer uma festa e ter que encostá-las! Somente quatro delas se moviam, que injustiça! Só que preferíamos assim a ter que dividir as coisas com outras crianças. Pelo menos nos entendíamos e a história sempre dava certo.

O carro das nossas donzelas era uma lancheira aberta. Não como essas de hoje, que mais parecem mochilas, mas daquelas de plástico mesmo. Quando aberta, virava um conversível. E a bagagem ia toda numa espécie de carrinho acoplado logo atrás. Uma vez vimos um carrinho verdadeiro da Barbie. Nossa, fomos ao delírio! A dona do carrinho não o viu naquele dia, porque enquanto estivéssemos ali, ele seria só nosso!

Lembro quando enjoamos daquele monopólio loiro e resolvemos pintar o cabelo de uma delas de castanho. E dá-lhe canetinha! Passei um tempão pintando mecha por mecha, mas voilá! Uma Barbie morena! O efeito ficou super natural, só que com algumas lavadas depois acabou ficando desbotado, mas nada que um dia no salão de beleza pra retocar a tintura não resolvesse!

Ficava difícil também fazer festinhas sem homens. As festas juninas eram um desfalque! Só dois bonecos machos! A solução era fazer os ursinhos de pelúcia serem os companheiros fofinhos das bonecas solteiras. Fizemos de uma boneca-bebê que minha irmã ganhou da madrinha (madrinha má!) um homenzinho também. Afinal, era absolutamente careca e vestia um macacão azul celeste com branco - um perfeito homem grande, gordo e careca! Mas ainda era pouco, a estatística populacional ali estava desfalcada. Era muita mulher pra pouco homem. Então fazíamos com que os tubos de Pringles virassem companheiros altos, magros e sem braços! Coitadinhas das bonecas que ficavam com eles, nunca eram abraçadas... :( Mas nossa imaginação foi mais longe. Usamos a cabeça de uma Barbie original (quando é original a cabeça nunca mais entra) pra fazermos um homenzinho. Grudamos a cabeça de um jeito lá que deve ter sido uma bela gambiarra, passamos uma faixa no peito e no abdômen, vestimos uma calça e uma camisa, e acabamos de cortar o cabelo que já estava todo recortado. Pronto. Nossa primeira mudança de sexo no mundo das Barbies. Mais tarde usamos esse ser para fazer o papel do Júnior, pra cantar ao lado da nossa Sandy - a boneca deveras parecia com ela, já que a Sandy tem aquele olhão e aquele sorrisinho de Barbie estampado na cara. E o Júnior ficou uma be-le-zi-nha, sabe? Os dois tiveram até direito a microfones auriculares feitos de massinha, iguzlainho aos do CD que tínhamos da dupla e que garantia o repertório do nosso showzinho em cima da mesa.

Quando saíamos do nosso cômodo-casa, era pra passear. Ora íamos à praia, lá na área de serviço, onde o sol batia. A faixa com sol era a areia e a sem sol era o mar. Simples, não? Quando o sol virava e acabava aquela faixa de areia imaginável, íamos embora da praia. Mas aí tínhamos a casa na praia! Nossas Barbies eram chiques, viu? A mesa da área de serviço virava a casa de praia delas. Pra fazermos uma discoteca, íamos até a sala, à noite. Desligávamos a luz e ligávamos a TV e o som (na época, era um rádio enorme com toca-fitas, toca-discos e toca-CDs). As músicas eram de uma fita cassete tipo "Dance remix" ou algo assim. E a luz do ambiente era proporcionado pela TV. Pra dar o efeito luz estroboscópica, íamos passando os canais com chiado. Como a sala era grande, as bonecas ficavam longe uma da outra, encostadas nos sofás. Mas pra dar uma realidade, fazíamos até as "panelinhas." E olhe que nunca tínhamos ido a festas, hein?


É, mas o tempo de ir a festas veio e as bonecas foram esquecidas dentro da caixa. Uma pena saber que aquela criatividade e imaginação se foram. Sim, certa vez tentamos arrumar nossas bonecas outra vez, mas não conseguimos. Coloquei um vídeo aqui pra demonstrar que imitar a vida em brincadeiras com bonecas era mesmo divertido e encantador. Ah, bons tempos que não voltam mais...